quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Coleira não é aliança de casamento

Texto de Rainha Shekinah
Vamos tentar debater o tema sem distorcer os discursos. Para você entender o que significa ter uma coleira, você precisa entender o que significa ser propriedade de alguém. E veja bem o termo escolhido, é propriedade. Quando se tem uma coleira, se tem um Dono.

Muitos praticantes mais sérios não gostam da romantização no BDSM, e sabe porquê? Abre portas ao abuso, manipulação e distorção. Mas isso não significa que são pessoas contra o amor.

O amor é do humano, vai existir ou não, a depender da relação ali constituída. O BDSM é uma prática sexual alternativa, uma espécie de jogo de poder, com muitas modalidades de interação. Conheço casais que são ligados por amor, alguns inclusive casados no civil. Estes casais não são a regra, são fruto do encontro.

Quando iniciantes vem ao BDSM buscando um namorado, estão sim com o foco errado. BDSM é uma prática sexual alternativa ou não convencional, as regras rompem com os paradigmas baunilhas, e alguns elementos da vida comum não tem o menor significado neste meio. A submissa que busca um namorado dificilmente entende o conceito de posse, não aceita irmãs, e luta para que o Dono não fique com nenhuma outra. Estas também caem fácil nos golpistas que juram amor na primeira semana, e dizem que elas são o que ele sempre buscou. Essas relações não duram nada, só alimentam o roll de denuncias que vemos todos os dias.

Percebe que ao dizer que no BDSM o foco não é amor, não é o mesmo que dizer que não pode existir? O amor é do humano, a existência dele pode ocorrer em inúmeras relações. São encontros.

Mas, vir ao BDSM catando um romance, é sim a porta para oportunistas usarem de forma não consensual, te manipulando até atingirem a meta. Acorda, um dominante pode ter quantas posses quiser, a grande maioria é casado com mulheres que não sabem a vida que eles levam e muitos buscam amantes e não submissas.

O fato de não haver amor não torna a relação fria. Comprometimento, respeito e cuidado, estes sim são essenciais as relações BDSM, ainda que seja apenas uma avulsa. Ao mergulhar aqui retire a influência baunilha. Fazer uma avulsa não é o mesmo que sexo casual. Se você diz que só se entrega por amor, é porque não faz ideia do que é ser posse ou na verdade não irá nunca pertencer a ninguém. Se entregar por amor é barganha, e não sua fonte de prazer.

BDSM é confiança e verdade. Oras, verdade é o que menos se vê, e não é culpa do BDSM, é culpa do humano.

A aliança de casamento é um simbolo social de união entre iguais, num elo de amor e na construção da família. A coleira também é simbolo social, que representa a posse de alguém, o estado de pertencimento. Não é uma relação horizontal como um casamento, é uma relação vertical, com regras, deveres, e estrutura.

Muitos casais unem os dois símbolos, alguns entendem que a coleira é muito maior. O elo BDSM é mais forte do que o elo baunilha, quando bem firmado ele resiste a tudo. O elo BDSM é feito pela confiança e verdade, quem é Dono ama (mesmo que não seja o amor romântico) a sua posse, e esta também o ama. Existe algo de fantástico na verdadeira servidão, aquela que esta sempre ali para tudo o que seu Dono precisar, e se estiver com alguém que valha a pena, ele lhe será grato sempre. Os pares são espelho, por isso pares.

Quando vejo homens querendo pagar de Grey, com conversa de aliança, com excesso de promessas, sei que estou diante de uma charlatão. Quem se veste de Grey não é BDSMer, é apenas um cara querendo usar uma figura de fetiche, se apropriar dela para poder iludir. Um BDSMer será ele mesmo, ele não precisa copiar personagens e nem criar um.

Perceba que isto nada tem haver com o filme, e sim com a apropriação de uma figura de fetiche que é o Grey e que é a meta das iniciantes. Este tipo de figura não atrai uma submissa experiente. Então você que quer romance, repense seu foco. Aqui o risco é grande, não só psicológico como físico. Você pode viver inúmeras fantasias sendo baunilha, mas servir não é troca, servir é um prazer que ou você tem, ou não dá pra inventar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Bondagismo Puro


Texto de Mestre Monteiro ACM Antonio

Postado originalmente em seu perfil no facebook


A ideia não é falar de diferenças. As palavras não carregam qualquer crítica. 
É bacana esclarecer antes que os novos arautos do New BDSM Nutela se emputeçam e comecem o clássico mi-mi-mi.

Então vamos escrever...

Bondage (esse termo mesmo!) não começou no Japão, nem na China ou na Cochinchina.

Bondage nasceu da mulher em apuros, da fantasia de rapto, sequestro. A tal Damsel in Distress é isso.

Bondage puro não é tipo de corda, mulher sorrindo, ritual com velas, um camarada do ocidente vestido de quimono com a mulher fantasiada de gueixa. Na captura - que é a essência de quem curte esse fetiche na forma mais pura, vale a mão tapando a boca, o lenço embebido de clorofórmio, a mulher sendo levada nos ombros, tudo isso na mais pura fantasia.

O bondagista de berço captou na lente dos seus olhos e na mente o tesão que viu das mulheres amarradas nos filmes, nos seriados, nas revistas em quadrinho na fase adolescente. E trouxe com ele.

Lá fora, onde resolveram organizar isso e lucrar com esse segmento, um sujeito chamado Irving Klaw começou dando as cartas.

Klaw tornou-se conhecido por desenvolver um tipo de negócio de pedido e entrega de fotografias pelo correio, onde vendia algumas fotos e pequenos vídeos de mulheres atraentes (às vezes em trabalhos de bondage) desde os anos 40 aos anos 60. 

Foi um dos primeiros fotógrafos de fetiche, e sua principal estrela (Bettie Page), transformou-se na mais famosa modelo de bondage de todos os tempos. Nasceu no Brooklyn, New York. Seu negócio de família, que inicialmente se chamou Movie Star News, começou em 1939 quando junto com sua irmã Paula abriu uma livraria (sebo) na Rua 14, número 209 no leste de Manhattan. Depois, ao descobrir que os adolescentes recortavam frequentemente fotos de seus anúncios de filmes, começou a vender pequenos cartões com destaque para as estrelas da época em separado. Os clientes poderiam folhear através dos vários catálogos de fotos de amostras e requisitar o que quisessem pelo número do artigo. 

Assim, venderam a velha livraria e mudaram a loja para o nível da rua, abandonando o antigo porão e a rebatizaram com o nome de Pin-up-king. E o negócio prosperou.

No final dos anos 40 recebia pedidos frequentes para o tema "Damsel in distress", nome dado às fotos das atrizes amarradas e amordaçadas. Por causa da dificuldade de encontrar trechos de filmes que pudessem atender à demanda, Klaw decidiu produzir suas próprias fotos. Novamente com sua irmã Paula, que chegou a posar para ensaios fotográficos, começou a vender fotos do fetiche de bondage usando como modelos dançarinas que faziam algum sucesso na época.

Então esse é o conceito básico. Essa é a história de onde vem o termo “bondage”.

Bondage não é apenas o ato de amarrar como alguns acreditam. Bondage é um pouco mais.

Bondage aceita que se prenda com fita adesiva, algema, zipper de plástico, enfim, uma gama de elementos que vai desde a corda mais trabalhada a um trapo de pano.

Bondage é a essência e não o ato.

A estética dos nós e nomenclatura das posições apareceram com o tempo. O próprio desenvolvimento do fetiche e a exibição publica atraíram olhares e trouxeram arquitetos de cordas e nós que criaram uma competição sadia de quem fazia mais bonito. Mas isso é apenas um detalhe num universo cheio de história e conteúdo.

Bondage não é somente plasticidade e perfeição de alinhamento das cordas. A expressão de quem está em perigo responde por 70% da cena e, esse aspecto, essa geração que hoje dá as cartas precisa entender, absorver e passar adiante.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O escravo e o "esparro"


Texto de Mestre Monteiro ACM Antonio
Postado originalmente em seu perfil no facebook



Faz tempo que navego pelo BDSM, e faz tempo que algumas coisas não me agradam.

E como não estou imune a passar em branco frente aos recém chegados, aqui vai uma pequena contribuição de um assunto em voga.



Atualmente, a internet exibe três tipos de mulheres com acento dominante em seus perfis. As verdadeiras Dommes, as Pro-dommes e as Rainhas.
Não fui eu quem criou essa nomenclatura, isso está nos perfis pra quem quiser ver.

E não raramente deparo com postagens em redes sociais em que algumas moças escrevem coisas do tipo: “necessito de um escravo motorista”. Apenas pra citar um exemplo.

Ora, nos comentários sempre aos borbotões, dezenas de pseudos escravos se habilitam a tal tarefa. Uns lamentam por morarem distante, outros alegam compromissos e outros pedem para marcar a hora.

Claro que ninguém vai aparecer pra isso. Porque essa moça não quer um Escravo, ela quer um Esparro. E aqui residem as diferenças básicas, gritantes e fundamentais.

Porque esta moça, que pode alegar ser uma pro-domme ou apenas uma dessas Rainhas de Podos que está em voga nos diversos grupos espalhados na rede, não tem a menor idéia do que significa ter um escravo. E se vale uma leitura atenta pode ser que essas palavras façam sentido, ou podem me chamar de idiota mesmo, porque eu não ligo. Ando evacuando um quilo exato pra esse tipo de mi-mi-mi.

Um sujeito que se presta a ir fazer um favor a alguém que escreve uma postagem desse tom na certa estará imaginando ter algo em troca pelo ato. E se tal fato realmente se confirmar será uma relação pro-domme de momento, com um valor estabelecido, ainda que não seja dinheiro, grana, cacau, mas uma pisada, um beijo no pé etc. Mas se nada rolar ele será um “esparro” por um dia.
Digo isso amparado em experiências de vida. Não tem nenhuma teoria de “chutágoras” aqui.

Uma relação “Master/Slave” denota muito mais que uma tarefa de levar uma moça a um shopping, ou a compra de um par de sapatos enviado pelos correios. Se fosse assim, estaríamos diante de um reducionismo absoluto do se resolveu chamar de BDSM.

Toda a responsabilidade que compreende a lisura do relacionamento de uma domme e seu escravo está muito além de uma dessas muitas conversas tolas que assisto todos os dias passando por minha timeline.

Uma verdadeira domme pode ter cinco escravos pendurados em sua corrente, desde que saiba ter atitude e conhecimento de causa para atender as responsabilidades que isto exige.

Então, se a onda é descolar um par de sapatos, uma lingerie, uma “carona” até o shopping mais próximo, ou distante, não use palavras das quais não tem o menor embasamento para proferir.

Fetichismo é muito bem vindo. Muita gente gosta de pés, pescoço, xereca fedida, o que for. Mas fetichismo não tem nada a ver com BDSM, com relação D/S. Fetichismo é fetichismo e pronto moças.

Seus pés podem ser lindos, seu sucesso incontestável. Eu mesmo curto muitas.
As fotos dos seus cabelos são magníficas, a bunda de parar uma partida de futebol. Você pode ser a gostosa da hora, a musa que deu certo. Pode ter um séquito de podólatras escrevendo palavras que te massageiem o ego, mas ser uma domme, uma rainha, ou até uma pro-domme exige muito mais que todos esses predicados relacionados aqui.

Ainda que o cidadão imbuído de sua autodeterminação alegue que ser um “esparro” é uma tarefa de humilhação condizente com os desejos de um escravo eu rebato, veementemente.

Porque para se humilhar diante de uma Senhora o cavalheiro disposto a tanto tem que pertencer a esta Mulher, de corpo e alma, não através de um avatar com foto falsa de uma rede social pautada pelo anonimato.

Fica a dica!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Mais um ano de blog.


Olá pessoas!!!

Tenho sentido saudades gigantonas de escrever de vez em quando, mas tudo anda muito corrido, e acabo por ficar sem temas pra escrever. Mandem sugestões no e-mail do contato, que assim eu animo de assuntar algo que vocês tenham necessidade.

Mais um ano novo se aproxima, e sei que tem gente aí, desde o começo me acompanhando, e gente que chegou indagorinha e devorando os artigos e textos.

Pra vocês, eu quero deixar um beijo gigante e o desejo de um ano novo estalando de gostoso. Nada de ficar remoendo e lamuriando o passado, é pra frente que se anda, é rumo ao futuro que se vai.

Também quero agradecer aos que me ajudam e colaboram com textos e artigos sempre que podem:

Lady Aurora Spenser, Lilene e Vulpes Az, obrigada pelo tempo de vocês, e que estejamos juntos no próximo ano!!!

Obrigada a todos que colaboraram e colaboram no blog com seus textos, vocês são The Best!!!

Que venha 2018!!!!!

Feliz Ano Novo!!!!

terça-feira, 25 de julho de 2017

VOCÊ NÃO É OBRIGADA!

Texto de Rainha Shekinah

Hoje, por ser o dia mundial do BDSM, farei um texto sobre escolhas e liberdades. Já posso adiantar, que a mensagem central é: você não é obrigada! Isso mesmo, não somos obrigados a nos encaixar em rótulo ou modelo nenhum que não traduza a nossa verdade.
Seja baunilha, fetichista, BDSM, libertino ou o que for. Apenas seja aquilo que representa você. Não se force a viver algo por terceiros, e não deturpe algo somente porque você não cabe ali.

Imagine um mundo onde todos vivem de acordo com o que de fato trazem em si, com respeito ao outro, sem forçar modelos. Pense como isso é fantástico!

Você não é submissa porque alguém te disse, não é masoca porque te disseram que esse é o caminho. Não deve perder a capacidade de pensar por si mesma, porque tentam vender uma anulação pessoal como entrega. Você é aquilo que traduz o que vai dentro de você.

Existe diferença entre querer viver tudo sem se esforçar, sem querer se dar, somente por comodismo, a anular a si para caber no papel que alguém decidiu que é seu.

Sabe o BDSM? São pares que se encaixam, são afinidades e estilos que se completam, são perfis que se juntam. Pessoas são diferentes, o par de um pode não ser o par para você. Por isso, numa data como hoje, respeite o que você é e não seja obrigada. 

Eu defendo uma entrega plena, limpa e consensual. Quando achar o seu par, viva, seja o que for, só nunca abra mão de ser você. Nenhum jogo pede que você se anule como pessoa, isso não é servir. Servir é escolha, não despersonalização.

Seja livre, viva o caminho que escolheu, respeite as diferenças. Curta o que for, e se lembre, você não é obrigada.

Sim, BDSM é uma coisa, baunilha outra, libertinos, fetichistas, são todos caminhos diferentes, tem o swingue, o poliamor, enfim, tantas formas de viver. Respeite as formas no que elas são, escolha a sua, e viva. Só não seja obrigada.

Um feliz 24x7 a todos!

terça-feira, 6 de junho de 2017

Rituais Individuais e Liturgias - Liturgia


Texto de Uther

Eu raramente escrevo no facebook, mas aqui acredito que valha elucidar alguns pontos sobre "esta tal da liturgia", e de antemão peço desculpas pelo texto longo mas eu ainda estou aprendendo a escrever o que penso.

A palavra liturgia conforme o dicionário e a prática, dá nome ao conjunto de regras de etiqueta ( etiqueta = pequena ética ) de uma religião, a liturgia católica por exemplo diz o momento em que seus fieis devem levantar, cantar, bater palmas, se abraçar, fazer silêncio, a cor ou posição da estola, etc etc etc.


Quando o BDSM começou a se firmar como movimento e começou a organizar-se, viu que esta palavra significava exatamente o que eles queriam demonstrar, ou seja, a liturgia no BDSM tem a função clara e prática de ser um código de etiqueta ( ética ) e como todo código ético visa organizar a vida das pessoas em comunidade.

Vale lembrar que ética não é moral, enquanto moral é um olhar individual sobre o que você não faria mesmo que não tenha ninguém olhando, a ética é um olhar coletivo, é a inteligência coletiva trabalhando para o bom convívio das pessoas.

Assim eu posso definir a liturgia BDSM como:

Liturgia BDSM compreende o conjunto de ritos e etiquetas que tem como principal finalidade ordenar os espaços de convívio entre os participantes de BDSM.

Convivo no meio BDSM há bastante tempo, faz quase 20 anos que fui ao Valhala conhecer pessoas que já conversava em chat ( terra e Uol ) como a Sra. Bárbara Reine, Senhora Bela e muitas outras pessoas que compunham o Grupo SoMos (ao qual nunca fiz parte, apenas conheci os participantes), nunca precisei conceituar o que era liturgia porque o ambiente ali era assim, tínhamos horas de rir muito nas mesas, e horas de seriedade nas demonstrações. A liturgia sempre foi muito prática, natural, lógica e presente.

Muitos reclamam que não há uma liturgia escrita mas é fácil de entender que há uma impossibilidade atual de haver apenas um código de ética para tudo, pois o que serve para o bom convívio de médicos não serve para o bom convívio de advogados, aliás cada empresa cria seu próprio código de ética conforme sua realidade, a simples existência de diferenças regionais podem diferenciar o que serve para o convívio dos BDSMers em suas comunidades, ainda sim existem alguns itens que posso citar pois até o momento são comuns em todo contato litúrgico que tive.

1 - ( e mais conhecido ) Pronomes de tratamento. O BDSM é uma escada com 3 degraus, no mais abaixo estão os Bottomns ( submissxs, masoquistas , bondagetes ( quem é amarrado )) e devem tratar com respeito (não obediência) quem ocupa os degraus acima, normalmente utilizando o termo Senhor ou Senhora. No degrau do meio estão os SW e no mais acima os Tops (sádicos, dominadores, bondagistas (quem amarra, priva, prende , lembrando que shibari é uma das variações de bondage ))

2 - Respeito a esta escada, ou seja, respeito a hierarquia. A preferência de tudo é sempre de quem está no degrau acima, este parâmetro pode ser usado para determinar o desenrolar de todo convívio social. 

Vou citar alguns exemplos:
  • Uma submissa não deve ir a uma festa com maquiagem pesada, roupas muito chamativas, e em alguns casos evitar salto, isso porque os adornos de beleza devem ser prioridade para aquele que domina. É para ir feia? Nãoooooo!!!! Apenas para não se vestir como Dommes se vestem. Caso seja uma escrava ( tenha coleira ) vá vestida conforme indicação do Dono.
  • No deslocamento de um cômodo a outro por exemplo, dar preferência aos que dominam, para que eles no ambiente novo escolham o lugar que vão ficar, e depois a submissa se acomoda.
  • Um sub não vai sentar no trono, e mesmo entre dominantes, se só há um trono é de bom tom deixar este para o anfitrião, ou dominante mais reconhecido por aquele grupo.
Posso ficar a tarde inteira dando exemplos, mas o importante é o conceito, dar preferência e não oferecer obediência.

3 - Ritos servem para determinar um momento importante, com o qual você queira compartilhar com a comunidade em que você vive, como por exemplo, um encoleiramento, e se continuar a escrever o texto, de imenso vai ficar ainda maior. Mas espero que tenha ficado claro com estes exemplos práticos que a liturgia é perfeitamente aplicável no nosso universo.

Para finalizar, vale ressaltar que toda este etiqueta apesar de ter uma destinação muito clara que é a convivência das pessoas serve muito bem para o relacionamento privado entre aquele que domina e aquele que é dominado, proporcionando a quem usa a possibilidade de viver uma experiência ainda mais rica e intensa.



*Originalmente escrito num debate no Facebook.

terça-feira, 2 de maio de 2017

A sub chantagista e vigarista


Texto de Sr. Jack Napier


Este texto foi estimulado por um comentário por parte de um TOP sobre uma bottom que ameaçou usar a Lei Maria da Penha, portanto achei útil compartilhar algumas ideias.

Pouco se fala dos problemas enfrentados por TOP iniciantes ou que tem compromisso baunilha e de qualquer forma, com pouca experiencia. Claro que estes, cheios de vergonha, nunca irão expor os problemas deles em público, mas talvez enfrentar este assunto, tabu em muitos âmbitos, possa ser útil para alguns.

Neste caso é o TOP quem é atropelado fora da faixa.

Como já falei em outro texto, não é incomum um bottom ao término de uma relação D/s acusar o TOP de abusos, somente para descarregar a própria frustração. Não é incomum o bottom agir também de forma manipuladora e chantagista, e, uma vez que o TOP não aceite este joguinho, o bottom criar falsidades para denegrir o TOP.

Até aqui, tudo bem, normal, acontece.

Mas há uma categoria de bottom que usa o BDSM para fins que são pouco bacanas, com premeditação e com o objetivo de tirar proveito de uma situação. São os chantagistas/vigaristas.

Este tipo de pessoas, são normalmente masoquistas, que aguentam boas pancadas, hematomas extensos, as vezes até na cara, e que caçam TOP sem experiência (que às vezes se dizem experientes), desavisados e ingênuos, com o fim de trazer proveito financeiro. Estabelecem uma D/s a jato, mas cuidam de ter muitos detalhes da vida do TOP “para a segurança deles”, fingem um namoro romântico e bonito na internet, e talvez por umas duas semanas de vida real, com encontros a luz de vela, poesias e promessas de amor. Procuram TOP que tenha uma boa vida financeira e estável, se for casado e a mulher nem desconfiar de nada, é melhor ainda para elas. O TOP ingênuo se abre... no Skype, no Facebook, e também em encontros pessoais, na negociação a jato, fala da sua vida pessoal, dos amigos e trabalho, da família.

Enfim começam as sessões românticas, regadas a frases bonitas e amor, com a sub pedindo spanking intenso, pois amor é amor, mas as pancadas são que a excita... e o TOP tentando fazer o seu melhor, para não decepcionar... bate com força...

Sempre falamos no meio que, se não há prova, não há crime. É muito fácil sair por aí falando e falando, mas sem provas...

E quando há provas?

Quando há um registro de motel que comprova quem esteve lá, fotos (sim, aquela frase... faça fotos com o meu celular que depois te mando) e uma ameaça de B.O. pela Lei Maria da Penha? Quando o bottom conseguiu detalhes sobre sua vida e pode enviar as fotos para o seu trabalho, para a escola de seus filhos, para sua esposa, junto a um B.O.?

Aí entra a chantagem do bottom vigarista... normalmente pedido de dinheiro, e muito, para não expor o TOP na vida baunilha dele, e o TOP normalmente paga, saindo desta situação com grande frustração e com a cauda entre as pernas, frequentemente depois abandonando o BDSM para sempre. Se for um mínimo esperto, pede prova de que pagou e que não há motivo para B.O. pois a relação era consensual.

Neste caso, o TOP foi mais um que cruzou a rua fora da faixa de pedestre, sem olhar dos dois lados, sem prestar atenção se vem um carro ou caminhão e em caso de o cruzamento ter um farol, não olhou para ele.

Quando falamos para conhecer bem as pessoas antes de se aventurar, normalmente falamos aos bottoms, pois são em maioria mais frágeis, mas o mesmo cuidado vale para os TOPs.

Alguns destes TOPs acham que porque se declaram Dominantes e leram algumas coisas na internet já o são, ledo engano. Ser Dominante não é se mostrar fodão e tentar dominar a sub de alma com textos bonitos... significa saber reconhecer os bottoms, saber entender o que realmente são e quais são os anseios reais deles... constituindo uma relação de poder.

Isto não se alcança em pouco tempo, nem com pouca experiência. É um percurso que precisa ser trilhado para entender como funciona o meio, pois assim como na vida baunilha, aqui também temos pessoas boas e ruins e, sendo maior de idade, cabe a você saber distinguir quem é quem.

Então se um dia for vítima de chantagem se pergunte: será que não cruzei a rua sem olhar, sem prestar atenção e fui simplesmente atropelado pelo meu descuido?

segunda-feira, 13 de março de 2017

O CARÁTER, O GOLPE E O GOOGLE - A farsa das redes sociais


Texto de Rainha Shekinah


Entre extensas discussões sobre o que é ou não BDSM, suas bases e práticas, todo o tipo de gente se junta a roda. Não desejo falar dos mais variados tipos de praticantes, hoje quero abordar algo especifico: o farsante.

Num contexto geral e sem entrar em nenhum tipo de regra ou conceito relativo ao meio, hoje quero apenas falar daquilo que é inerente ao ser humano, que por sua vez se reflete no que faz. Quero falar sobre caráter, por entender que antes de falarmos das práticas devemos pensar em quem as realiza.

Se pensarmos a fundo sobre qualquer base ou modelo que um praticante possa estruturar suas relações BDSM, não importa se é SSC, RACK, TPE, a única coisa que rege a proteção de ambas as partes é o caráter. 
Não importa sua idade, ou o tipo de história que você tem com o mundo do fetiche, o que importa no fim é sem sombras de dúvidas o tipo de pessoa que você é, isso sim vai refletir em tudo o que fizer.

Certa vez falei sobre ética e verdade, agora ataco o caráter e a identidade do praticante. No fim, devemos olhar para nós mesmos e para os nossos pares com olhos nus, olhos livres do ego, para poder sentir o que esta dentro de nós. 
Cada um trilha o caminho que quiser em busca do prazer, afinal o prazer é pessoal e não diz respeito ao senso comum. Cada um deve ser capaz de gerir e escolher aquilo que lhe satisfaz, seja respeitando as regras ou escolhendo viver num espaço onde estas não existem.

Eu penso naqueles que se dedicam a construir uma imagem de diplomáticos, que não se posicionam em questões fundamentais, que estão sempre na corda bamba, pajeando o lado mais vantajoso da moeda, se vendendo com palavras que o outro quer ouvir porque no fim não tem base para argumentar nada. 
Penso nos tantos que vejo que utilizam dos sites alheios, de textos e de informações colhidas junto aqueles que de fato dão a cara a tapa para viver o BDSM real, para construir uma imagem de mentores e de grande sabedores. Pessoas estas que muitas das vezes nem sequer manipulam o básico, nem um flogger sabem usar e vivem da ilusão de que possuem um harém ainda não concretizado.

Penso nas pessoas que se aproximam de outras por status, por um trampolim. Pessoas que bebem da bagagem de outro e nunca lembram da referência. Pessoas que em si são o golpe verdadeiro.

Talvez a grande farsa das redes sociais sejam essas pessoas que se escondem atrás de uma vida ilusória inexistente, munidas de uma falsa popularidade nunca exposta. E quando vamos aos eventos e encontros, vemos sempre os mesmos, sempre as mesmas pessoas que estão ali muito mais do que pelo prazer, mas pela troca e pela ausência de medo de ser quem são.

Então é assim que defino quem é real pra mim no BDSM, aquele que não importa a posição vai ao encontro dos seus pares sem medo da troca de experiencia, sem medo de se revelar porque o que construiu ou deseja construir tem verdade.

Informação teórica é fácil, informação técnica não. E de uma certa forma é uma proteção que certos conteúdos só possam ser aprendidos no cara a cara, onde esse outro precisa sim se revelar a alguém.

Eu lamento que tantas pessoas sejam seduzidas por discursos belos e romanceados. Lamento que pessoas achem bonito o elogio constante e não se perguntem sobre a falácia da perfeição. Sigo a mesma premissa da amizade verdadeira, se nunca há criticas, há falta de verdade.

Pessoas são diferentes, umas duras, outras gentis, isso não tem haver com ausência de posicionamento coerente. Não vejo dano em dizer você está errado, olhe aqui o caminho. Mas vejo enorme dano em passar a mão na cabeça pra ter seu afeto.

O grande golpe é este tipo de praticante legalzinho demais, que prega um romance de contos de fadas e esquece que a vida é real e feita de pessoas com suas dores, problemas e dificuldades.
Há incoerência demais. Há muito rosa numa vida que é pigmentada por todas as cores.

Então minha reflexão é sobre o caráter. Sobre refletir ser o que se é, sobre viver o que se prega, sobre falar a verdade, sobre não se nutrir da experiência de alguém pra fazer pseudo fama e por fim, sobre a dignidade de portar e honrar o próprio nome.

Não existe essa de eu teria um submisso por dia se quisesse, isso é desculpa. Quem pode tem e normalmente quem tem nem conta. Desculpas são desculpas, e para todo o resto temos nas redes sociais o grande espelho da humanidade.

Mas nem tudo é tão ruim, porque sempre nesse emaranhado a gente encontra gente real, que se indigna com o mesmo e que torna este caminho justificável.

Não, eu não quero perto de mim quem ilude para comer a coleguinha, quem ilude por status, quem prega respeito através da sedução e tem sua própria posse se oferecendo a qualquer um que apareça. Não quero mesmo bajuladores, não quero nem sequer estar certa porque como ser humano eu erro e gosto muito até de falar sobre isso. Mas não vou botar pó mágico na vida pra te seduzir, nem vou aceitar tudo o que você quiser pra transar com você. Eu respeito o outro independente de tudo, e respeito a mim mesma.

Adoro o prazer, e nunca provei o prazer real sem a verdade de ser o que se é!

terça-feira, 7 de março de 2017

História do BDSM - São Paulo

Texto de: Sra. Gata Selvagem
Postado originalmente em sua page no Facebook.

Uma Aulinha do Tele Gata Madureza sobre História do BDSM Nacional.

- A festa BDSM mais antiga aberta ao público eram as Festas do Valhala, localizado à Rua Francisco Cruz na Vila Mariana.

- O Valhala foi o 1° Bar unicamente BDSM no Brasil, abriu no final de 1999, e era propriedade de Bárbara Reine, Klaus e Anjo Cruel. Em 2002 o nome foi vendido e o ponto passado para Marco Fioritto e a partir deste ano (2002), o Valhala passou a ser uma Casa voltada à Podolatria.

- Antes da abertura do Valhala, aconteciam festas fechadas em Studios /Ateliês entre eles: Surgery, Ateliê Eliane, Dominna Fetish House, Clube Ó, como também encontros em Bares, os mais famosos deles em SP eram no Zyllerthal e Estalagem, ambos em Moema.

- As cenas BDSM fora de SP, ainda eram beeeem pequenas ou inexistentes e a maioria dos praticantes desses Estados, optavam muitas vezes por vir à Sampa.

No Rio de Janeiro existiram, 3 casas BDSM, se não me engano, mas infelizmente com pouco tempo de duração. Se alguém souber mais dessas Casas, toda ajuda é bem-vinda.

- Em 2002 após a venda do Valhala, os praticantes BDSMers ficaram sem lugar de Encontros e foi onde eu passei a fazer Encontros no Finnegan's, um pub situado à Rua Arthur de Azevedo esquina com a Cristiano Vianna em Pinheiros e depois passamos a fazer encontros no Pinheirinho.


- O Clube Dominna de Propriedade de Rainha Walkíria Schneider, Mistress Bela e Roberto, abriu em 2003 na Rua Topázio, antes deste ano chamava-se Dominna Fetish House com abertura em 1998, e era um Studio de Dominação Femdom de Propriedade de Rainha Walkíria Schneider, situado no Largo São Jose do Maranhão, em Tatuapé.

- Em 2007 abriu-se um Bar BDSM chamado Clube Libbens na região de Santana, na Rua Voluntários da Pátria, de propriedade de Mister Krock e mairynka, porém, infelizmente teve pequeno tempo de vida, se não me engano de 06 a 08 meses, mesmo com muita boa vontade por parte dos Donos e praticantes.

- O Clube Dominna possuiu 4 endereços (Topázio, Muniz de Souza, Euclides Pacheco e Raul da Rocha Medeiros), entre 2003 e 2010 data do fechamento de sua sede e entre essas trocas de endereços eu voltava a organizar encontros, entre eles os memoráveis encontros no Cafe do BIxiga na Rua 13 de maio, e sempre que o Dominna reabria eu parava de fazê-los lembrando á Todos que tínhamos uma Casa totalmente preparada para nos encontrar.

- Em julho de 2012, Gata Selvagem (Eu) abre o Bar da Gata (BDSM Clube), Bar totalmente voltado ao estudo, festas e liturgia BDSM, situado no Tatuapé, e a história continua...

Qualquer informação diferente dessas é inverídica e mostra o descaso, a desinformação e a falta de respeito por aqueles que fizeram a história do BDSM no Brasil.

E sim, eu estive em tudo e sou testemunha ocular.

Bom Dia a Todos.

sexta-feira, 3 de março de 2017

BDSM Socorros - Como lidar com um ataque de pânico.

Quando falamos em Dominação, falamos de controlar a mente do bottom, isso vai muito além de sermos apenas persuasivos, jogos psicológicos são fantásticos, mas quando usados na medida certa.

Em uma sessão de disciplina, scareplay, até mesmo uma cena mais pesada no requisito psicológico, o bottom pode apresentar um ataque de pânico, devido ao fato de seu psicológico e físico ser levado ao limite sem que ele possa interferir.

Se o bottom não estiver com a saúde mental plena e consciente, ao invés de chegar ao subspace(geralmente em subspace a pessoa "desliga" e desmaia) este pode ter um ataque de pânico, o Top deve estar preparado e deve saber como agir para controlar este ataque, trazendo o bottom de volta a sua normalidade mental.

1- Reconheça os sintomas.

O bottom se acometido por uma crise de pânico irá apresentar estes sintomas:

-Dor ou desconforto no peito.
-Tontura ou sensação de desmaio.
-Medo de morrer.
-Sensação de asfixia.
-Náuseas ou dores de estômago.
-Dormência ou formigamento nas mãos, nos pés ou no rosto.
-Palpitações ou sensação de coração disparado.
-Sudorese, calafrios ou ondas de calor.
-Tremedeira ou agitação.
-Alucinações.

2- Ajude o bottom a normalizar a respiração.

-Afrouxe as roupas de seu bottom caso o mesmo esteja vestido.
-Coloque-o em posição confortável e faça-o respirar fundo e pausadamente.

3- Não deixe o bottom correr ou se debater.

-Segure-o pelas mãos ou abrace-o falando palavras de conforto a fim de acalmá-lo.

4- Use a Meditação a favor.

-Utilizando técnicas de relaxamento conduza o bottom a uma meditação, até perceber que este entrou numa espécie de transe. Corpo e músculos, completamente relaxados, de preferência fazer o bottom adormecer.

5- Procure ajuda médica.

Um ataque de pânico pode significar que o bottom necessita de acompanhamento especializado, talvez até mesmo o uso de medicamentos.

-Dê todo o suporte possível, marcando a consulta, acompanhando o bottom e ajudando no tratamento do mesmo.
-Atividades físicas, alimentação leve e a não ingestão de substâncias estimulantes ajudam a inibir acessos de síndrome do pânico e transtornos psicológicos.

Lembrem-se a Dominação vai muito além de realizar sessões com técnicas e tempo de prática.
Um bom Dominador precisa estar preparado para lidar com situações inesperadas e adversas.

Até a próxima!
Bloody Kisses.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Bases SSC x RACK - Qual a diferença?

Texto de Bia Baccellet

Antes de qualquer coisa, preciso fazer uma breve explicação sobre o que vem a ser as "bases" do BDSM.

Sabe o significado de "base"? Aquele que diz que "Base é a parte inferior de alguma coisa, considerada como seu suporte" ou "Alicerce" ou ainda "Base - parte ou aspecto essencial de alguma coisa; princípio; origem".

Consultando dicionários mil pela internet afora conseguimos vários significados pra palavra base, todos com a conotação de "princípio", "origem" ou "fundamento".

É exatamente esse significado que as "Bases" do BDSM possuem. Elas são o fundamento, o suporte, o princípio, a origem de uma relação BDSM qualquer que seja, fixa ou não. É o princípio que "guia" a condução de uma relação.

Então a primeira coisa que se deve fazer ao decidir praticar BDSM com alguém é definir a "base" sobre qual essa relação vai se dar. Já que, qualquer coisa que seja, começa pelo começo, pela "base".

Existe uma quantidade razoável de bases, capazes de deixar uma pessoa doida de tanto pensar em como escolher. Mas fundamentalmente o BDSM tem duas bases mais usadas, e é nelas que vamos colocar nossa atenção. Talvez em um outro texto possamos abordar as outras bases, mas acredito que esse será suficiente pra ajudar na sua escolha.

A primeira "base" criada no BDSM foi o SSC. E é ainda hoje a mais usada. Em inglês é Safe, Sane and Consensual e em nossa língua é São, Seguro e Consensual.
Na verdade o SSC foi criado bem antes de o BDSM ter essas quatro letrinhas, ainda se chamava SM, e era uma forma de conscientização entre os praticantes de sadomasoquismo de era necessário ter bom senso para praticar enquanto comunidade. Nosso objetivo não é focar no requisito histórico e sim na funcionalidade. Então prossigamos.

A segunda "base" criada foi o RACK. Criado para trazer um nível maior de conscientização quanto aos riscos, já que a interpretação literal de "seguro" estava sendo levada a extremos de ser "100% seguro". Em inglês é Risk-Aware Consensual Kink e em nossa língua Perversão Consensual Consciente do Risco.
A diferença básica entre o SSC e o RACK é o "Risk-Aware" onde fica explícito que deve haver consciência do risco ao submeter-se às práticas sadomasoquistas.

Até aqui todos vivos? Ou já deu nó na cachola?

Vamos desfazer esse nó então.

Quando uma pessoa diz que pratica com base no SSC, ela quer dizer que:
  • Procura minimizar os riscos ao máximo, diminuindo ou eliminando se possível qualquer possibilidade de algo dar errado. Isso não exclui o fato de que algo pode dar errado, apenas garante que a pessoa fará de tudo pra que esse risco seja o menor possível.(Seguro)
  • Usa o bom senso na escolha dos materiais e dos "brinquedos" que vai usar, respeitando limites previamente acordados.(Seguro)
  • Está consciente e de plenas faculdades mentais, livre do efeito de drogas, entorpecentes legais ou ilegais, tendo capacidade de consentir livremente e de "juízo perfeito".(São-Consensual)
  • Está consciente de que mesmo que seja minimizado o risco, ele existe, mas aceita se submeter às práticas, sendo respeitados os limites previamente acordados.(Consensual)
  • O consentimento pode ser "retraído" a qualquer momento, bastando pra isso proferir uma "palavra de segurança", previamente acordada, sendo essa palavra um "stop" pra o que quer que esteja acontecendo, já que ela "retira" o consentimento naquele momento.(Consensual-Seguro).
Quando uma pessoa diz que pratica com base RACK, ela quer dizer que:
  • Procura não extrapolar os riscos, diminuindo a possibilidade de algo dar errado. Isso não exclui o fato de que algo pode dar errado, apenas garante que a pessoa terá atenção ao nível de risco acordado.(Risk-Aware) 
  • Usa o bom senso na escolha dos materiais e dos "brinquedos" que vai usar, respeitando limites previamente acordados.(Risk-Aware)
  • Está consciente e de plenas faculdades mentais, livre do efeito de drogas, entorpecentes legais ou ilegais, tendo capacidade de consentir livremente e de "juízo perfeito".(Consensual)
  • Está consciente de que mesmo que seja minimizado o risco, ele existe, mas aceita se submeter às práticas, sendo respeitados os limites previamente acordados.(Consensual)
  • O consentimento pode ser "retraído" a qualquer momento, bastando pra isso proferir uma "palavra de segurança", previamente acordada, sendo essa palavra um "stop" pra o que quer que esteja acontecendo, já que ela "retira" o consentimento naquele momento.(Consensual)
E agora a GRANDE DIFERENÇA:
  • Está consciente do nível de risco que cada atividade pode oferecer, tendo estudado previamente quais riscos são esses e administra esses riscos de forma satisfatória pra ambas as partes que "negociam". Ou seja, com a consciência do real risco das práticas que estão no acordo, pode-se negociar um limite de risco maior caso desejem.(Risk-Aware)
Então o SSC é café com leite e o RACK é coisa de gente grande né?

Claro que não. É possível perfeitamente executar práticas muito arriscadas na base SSC, se for respeitada a premissa de que foi feito todo melhor esforço pra reduzir e minimizar o risco que tal prática oferece. (Já que no restante é tudo praticamente igual)

Vou propor uma situação que pode parecer até cômica, mas que é muito recorrente no nosso meio, e que já gerou um bocado de polêmica comigo:

Situação: O Dominador quer ordenar que sua submissa fique por um dia inteiro sem calcinha.

Base SSC:
  • Levar em conta os locais que a submissa frequenta.
  • Levar em conta se ela tem transporte próprio ou usa transporte público
  • Levar em conta se trabalha e se usa banheiro coletivo no trabalho
  • Levar em conta se usa móveis compartilhados no trabalho ou se tem mobiliário exclusivo(cadeiras, bancos e etc)
  • Levar em conta se usa uniforme, vestido, saia...
  • Levar em conta se está menstruada ou se tem algum impeditivo de natureza pessoal
Após analisar isso tudo o Dominador verifica se vai expor a submissa a um risco desnecessário, correndo o risco de contrair doenças/irritações na região genital ou causar constrangimento desnecessário na rua e/ou trabalho, e vai avaliar se vale a pena o risco, e pode fazer "adaptações" de acordo com o que ele avaliar mais seguro naquela situação.

Base RACK:
  • Levar em conta os locais que a submissa frequenta.
  • Levar em conta se ela tem transporte próprio ou usa transporte público
  • Levar em conta se trabalha e se usa banheiro coletivo no trabalho
  • Levar em conta se usa móveis compartilhados no trabalho ou se tem mobiliário exclusivo(cadeiras, bancos e etc)
  • Levar em conta se usa uniforme, vestido, saia...
  • Levar em conta se está menstruada ou se tem algum impeditivo de natureza pessoal
  • Informar à submissa todos os riscos que envolve em "sair sem calcinha"(inclusive de contrair doenças/irritações por conta disso) e quais prejuízos ela pode ter, e se ela mesmo ciente dos riscos, concordar, então a ordem será dada.
Nesse caso, o risco será assumido por ambas as partes, mesmo que haja prejuízo visível, o nível desse risco a ser aceito(Risk-Aware) é decidido de comum acordo, podendo ser maior do que o tolerado no SSC, ou apenas "não minimizado".

Então, a escolha da base nada tem a ver com a prática que vai ser feita, como é comumente falado, que a prática "X" é RACK, ou a prática "Y" é SSC. Qualquer prática pode ser feita usando qualquer uma das bases, pois não é a base que define a prática, a base define o "suporte", o "fundamento", o "alicerce" da relação entre os envolvidos.

Por definição o RACK vai exigir muito mais conhecimento das práticas e atividades pelas pessoas, para que possam definir juntos que nível de risco é aceitável a ambos, ou se, o prazer vale a pena o risco(caso seja muito alto).

Se você é novo ou iniciante e negocia com alguém já experiente e que deseja usar a base RACK com você, é responsabilidade do praticante experiente fazer o ""risk-aware" contigo, explicando todos os riscos que envolve as práticas acordadas e colher seu parecer sobre o nível de risco que você deseja experimentar, a consciência do risco não obriga ninguém a aceitar um nível maior do que suporta/tolera.


Obs.: Lembrando que, SSC ou RACK você deve manter o bom senso sempre, pessoas são sujeitas a limites tanto físicos quanto psicológicos. Respeitar acordos é primordial em qualquer base, seja qual for.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

TOP POSER E SUAS VERDADES ABSOLUTAS

Texto de Lily Switcher

Quem nunca encontrou um desses por aí?

• O que diz não pode ser contestado, afinal suas idéias nasceram de sua experiência de anos no BDSM.

• SEU BDSM é o melhor, afinal ele segue a Liturgia de cabo a rabo (sem trocadilhos por favor).

• Gosta de lidar com iniciantes, afinal ele é o Mestre dos Mestres e tudo vai ensinar aqueles que ainda não tem vícios.

• Chega, chegando nas conversas, afinal ele é o Tal e todos tem que concordar com ele.

• Trata sub mal, afinal subs são seres inferiores e só podem dizer amém.

• Faz questão de Títulos, afinal nesses momentos BDSM não tem regras a seguir e ele se intitula o  que quiser.

• Encobre merdas dos amiguinhos, afinal só os inimigos são os errados.

• Vai moldar os subs, afinal esses são como massinha de modelar e precisam ser moldados à sua vontade.

• Vai fazer o sub evoluir, afinal ele é um Mestre Pókemon.

• Vai criar seu Clã fodástico/Liturgico, afinal o real BDSM precisa ser vivido e disseminado.

• Vai usar o termo sub (reparem q fiz questão de usar também), afinal todo bottom tem que ser igual.


(Se vc é imune a sarcasmo, não leia esse texto)


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Somos todos monstros


Texto de Bia Baccellet

Sempre que faço uma autoanálise, fico me perguntando de onde saíram meus gostos diferentes e vontades de experimentar coisas muito opostas ao consenso geral da moral e dos bons costumes. E cada vez eu fico me perguntando a mesma coisa:

Como alguém pode gostar de BDSM?
  • O BDSM não é bonito e tampouco romântico ou carinhoso. Afinal o que leva alguém a gostar de BDSM então?
  • O que nos motiva a desejar o bizarro, a loucura, a imoralidade, a sujeira e podridão?
  • Haveria um monstro me habitando?
Ao longo dos anos tive várias respostas pra essa pergunta, hoje elas parecem não responder mais a essa questão, parece não mais ser suficientes, ainda permanecendo a incômoda dúvida. O monstro ainda permanece rugindo.

Fazendo uma retrospectiva, posso tentar justificar meus gostos "estranhos" no meu passado, colocando um evento ou outro em voga, desenterrando os ossos da memória e buscando uma resposta. Mas fazendo isso só consigo mais perguntas ao invés de respostas, ainda somando alguns "e se" ao rol de indagações que surgem.

- E se tal evento não tivesse acontecido, eu seria ainda a mesma de hoje?
- Será que foi isso que me mudou pra sempre?
- Essa influência foi tão forte assim?

E acabo chegando à óbvia conclusão que não sou fruto de um único evento do passado, mas sim, de vários eventos somados, que foram me mudando e me tornando a pessoa que sou hoje, ou o monstro que em mim habita.

Os caminhos poderiam ter sido diferentes? Podiam. Mas não foram.

Aqui estou, assim eu sou.

E gosto do que gosto, apesar de não entender porquê exatamente. Apesar de ainda procurar uma resposta pra esse porquê. Não por necessidade de responder a algo, não por culpa ou para pôr culpa, mas para enfim me entender e extrair de mim mesma o máximo que eu puder.

A complexidade que somos nos impede de ligar os pontos numa retrospectiva e traçar uma linha de eventos que nos fez chegar até o BDSM, ou até mesmo entender porque ainda continuamos a gostar dele, apesar de parecer algo tão natural como a luz do dia, apenas gostamos.

Talvez com essa minha constante tentativa infundada e vã de explicar o inexplicável eu consiga trazer sanidade e clareza aos meus pensamentos, finalmente confirmando que nada tenho de errado, que o monstro não é tão feio assim, ou, quem sabe, o monstro não existe, e até mesmo entender que, definitivamente, somos todos monstros.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Eu comecei cedo.


Texto de SW Gata Morena


Desculpem-me vocês que começaram no BDSM tarde, aos 14 ou 15 anos, mas eu comecei cedo. 

Me descobri sub bem cedo. Aos 5 anos tinha um prazer imenso em servir, adorava quando a dona de mim dizia, vamos fazer um bolo: - Ponha leite na bacia, quebra os ovos… ficava radiante com os elogios, muito bem, igual uma mocinha, está grande mesmo…

Aos 8 percebi que era switcher quando tive a minha primeira senzala. Eu ia brincar na rua e a bola era minha, a rede era minha, os golzinhos e até as traves eram meus, os melhores brinquedos eram meus, logo, se eu não ganhasse levava a bola. Adorava brincar de casinha, na verdade brincar de mansão, eu sempre era rica e todos meus empregados.

Aos 11 uni minha senzala com a de um outro top que eu conheci, ele era lindo, tinha brinquedos importados, todo mundo queria brincar com ele. Quando não queríamos brincar… ficávamos rindo de todos sem emprestar nada. 

Aos 13 anos tive minha primeira D/s com uma escrava. Começou quando ela disse que me amava, eu bati nela. Depois a aceitei como namorada e fazia ela pegar tudo para mim: carregar minhas coisas, amarrar meus cadarços, abrir os botões das minhas roupas e tudo mais… acho que só me limpava sozinha. 

Aos 16 descobri meu poder dominante e tive vários escravos… comecei a descobrir os money slaves, os submissos, os escravos... fazia eles pagarem meu refrigerante, carregar minhas coisas, e as coisas das minhas amigas, como recompensa dava beijos nos que mais me agradavam, nos outros era só isso mesmo.

Daí em diante fui só aprimorando minhas práticas dentro do BDSM, e hoje, aos 35 anos, com toda minha experiência posso dizer que tenho 30 anos de BDSM. 

Meu único arrependimento é nunca ter ido ao exterior, deve ser incrível chegar nos aeroportos da América do Norte ou da Europa, onde tem pessoas entregando panfletos que devem dizer “Ei você, pratique o BDSM”, “Jovem, já se submeteu hoje? ”, ou “Aprenda táticas de negociação e dominação em 3 dias”, ou até melhor... APRENDA COMO CRIAR SEU PRÓPRIO BDSM.


Para você que está levando a sério, isso é apenas um deboche de situações que eu vejo por aí...

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Por favor, não me chame de Senhor


Texto de: Vulpes Az


Sim sub litúrgica, isso mesmo que você leu. Saiba que muitas vezes esse chamativo não tem significado algum e soa FALSO. Não precisamos viver (apenas) de aparência... Muito se fala sobre a questão do respeito e como ele deve ser conquistado e não imposto, etc etc etc.... numa evidente linha tênue entre a autoridade e o autoritarismo (falo um pouco sobre isso nesse texto).

O chamativo “Senhor” é uma expressão dessa “autoridade” do Top em relação ao bottom. Quando é articulada, carrega um significado além e “confirma”, “atesta” que o bottom vê , na pessoa daquele Top, uma figura de respeito e/ou autoridade. E isso é muito bom! É uma conquista extremamente satisfatória e recompensadora.

Meu incômodo mesmo é uma pessoa que ainda não entende esses significados, essa “carga” que os signos tem nesse meio. Daí só por que viu outros bottoms replicando “senhor!” aos quatro ventos, copia o comportamento.

Retomando o significado ao tratamento e o que ele representa, não fica estranho uma frase como “e quem é o Senhor?”?

Essa frase, imagino, raramente é dita. Contudo em muitas conversas com pessoas que mandam convite de amizade fica essa sensação no ar. Além de ser uma falta de educação a pessoa te aborda, te convida, pede pra add mas não sabe nada sobre você. E a repetição de “Senhor”, alias... meramente Sr. (pq nem se dão ao trabalho de escrever apropriadamente) vazio, sem significado, simplesmente uma..... palavra... Fica muito feio.

Isso não mostra que você entende das coisas, somente evidencia que não!

Querendo ou não nesse meio muita coisa é “aparência” e não há nada de errado nisso, mas tem certas coisas que tem por que de ser. A conversa começa a tomar contornos de um certo “teatrinho”.

Essa questão é apenas um simples sintoma de uma problemática maior. É o se preocupar mais em PARECER que SER, é a pressa em ter resultados rápidos e principalmente o achar que “sabe o suficiente e está pronto”.

Não estou falando aqui nesse texto se o chamativo é errado ou não e sim o modo como ele é usado.